{"id":3361,"date":"2016-11-21T17:16:16","date_gmt":"2016-11-21T17:16:16","guid":{"rendered":"http:\/\/toposatelier.com\/?page_id=3361"},"modified":"2016-11-21T18:05:34","modified_gmt":"2016-11-21T18:05:34","slug":"casas","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/toposatelier.com\/fr\/casas\/","title":{"rendered":"Casas"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: center;\">casas<\/h4>\n<h4 style=\"text-align: center;\">GON\u00c7ALO BYRNE<\/h4>\n<p style=\"text-align: center;\">(introdu\u00e7\u00e3o monografia: \u00ab\u00a0Casas, Houses\u00a0\u00bb)<\/p>\n<div class=\"twocolumn\">\n<p style=\"text-align: justify;\">As artes da paisagem s\u00e3o de tal modo dominadas por Andr\u00e9 Le N\u00f4tre, o paisagista do Rei-Sol, Lu\u00eds XIV, que este o trata com amizade \u00edntima e, ao mesmo tempo, temer\u00e1ria, j\u00e1 que o julga possuidor de dotes sobre-humanos.<br \/>\nBastar\u00e1 percorrer os jardins de Vaux-Le-Vicomte para dar raz\u00e3o a Lu\u00eds XIV, tal \u00e9 a maestria no dom\u00ednio da perspectiva e a imagina\u00e7\u00e3o na oculta\u00e7\u00e3o e revela\u00e7\u00e3o dos \u00e2mbitos visuais, na sequ\u00eancia din\u00e2mica de quem caminha, na percep\u00e7\u00e3o sensorial dos ambientes envolventes, referenciados ao edif\u00edcio dominante &#8211; o Chateau -, simultaneamente tornado centro de converg\u00eancia e p\u00f3lo de radia\u00e7\u00e3o de toda a experi\u00eancia real, vivida, ou simplesmente intu\u00edda.<br \/>\nEsta persistente e paciente capacidade &#8211; fruto do g\u00e9nio humano &#8211; da ideia transformada em artefacto, parte da natureza e a ela volta, noutra condi\u00e7\u00e3o agora intu\u00edda por obra e gra\u00e7a da capacidade de projectar.<br \/>\n\u00c9 este o fascinante labor da arquitectura que torna viagem de uma pr\u00e9-exist\u00eancia, seja ela paisagem ou constru\u00e7\u00e3o, reciclando-a numa outra presen\u00e7a com capacidade de inquietar quem pensa que a natureza ou a obra humana \u00e9 definitiva, est\u00e1tica e indiferente a quem nela habita ou, simplesmente, com ela se confronta.<br \/>\nA obra j\u00e1 bastante divulgada e reconhecida deste atelier de Braga &#8211; sintomaticamente nomeado Topos &#8211; tem vindo a revelar, particularmente nas casas que constituem esta monografia, uma not\u00e1vel sensibilidade paisag\u00edstica, de algum modo herdada da vertente antropol\u00f3gica revelada no inqu\u00e9rito \u00e0 arquitectura popular dos anos 50 e, em parte, tocada pela melhor tradi\u00e7\u00e3o da Escola do Porto.<br \/>\nJean-Pierre Porcher, Margarida Oliveira, Albino de Freitas e os seus colaboradores apresentam nesta monografia uma fascinante selec\u00e7\u00e3o de casas em situa\u00e7\u00f5es de periferia mais ou menos rural, onde a tradicional e banalizada tipologia pavilhonar d\u00e1 origem a constru\u00e7\u00f5es bastante mais complexas, nas quais os respectivos microcosmos individuais coexistem com as hierarquias paisag\u00edsticas que passam do dom\u00ednio mais intimista \u00e0 representa\u00e7\u00e3o t\u00f3pica, encenada entre um (s\u00f3) aparente espontane\u00edsmo e uma subjacente erudi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nHabitar a paisagem reciclando as pr\u00e9-exist\u00eancias pressup\u00f5e, na l\u00f3gica dos arquitectos, partir de uma natureza que apesar de j\u00e1 anteriormente antropizada se constitui como refer\u00eancia, onde as causas da anterior antropiza\u00e7\u00e3o desaparecem por eros\u00e3o ou abandono e, como tal, regressam \u00e0 condi\u00e7\u00e3o natural.<br \/>\nEste naturalismo pr\u00e9-existente revela no entanto tra\u00e7os antropol\u00f3gicos que se ir\u00e3o invocar na transforma\u00e7\u00e3o que o projecto produz.<br \/>\nAntes de mais, a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o topogr\u00e1fica, geralmente complexa na maioria dos projectos em que um terreno inclinado \u00e9 transformado por uma arquitectura de solo, estratificada entre muros de conten\u00e7\u00e3o, cuja materialidade \u00e9 criteriosamente seleccionada numa tect\u00f3nica po\u00e9tica e grav\u00edtica, estabelecendo novas rela\u00e7\u00f5es entre as partes e predispondo outros usos, abrindo perspectivas visuais diversas, assimilando ou contornando coberto verde existente, promovendo um verdadeiro reordenamento do s\u00edtio, em que as pr\u00f3prias pr\u00e9-exist\u00eancias constru\u00eddas, esvaziadas dos seus fundadores, s\u00e3o reutilizadas, evidenciando as tect\u00f3nicas remanescentes, agora ao servi\u00e7o de novas tipologias que se ir\u00e3o entrecruzar com acrescentos, adjac\u00eancias integrantes duma poss\u00edvel nova percep\u00e7\u00e3o unit\u00e1ria onde \u00e9 not\u00f3ria a vontade de constituir como que outra nova natureza.<br \/>\nEssa not\u00e1vel capacidade de ir artificialmente e passo a passo fundando um novo s\u00edtio, fechando o ciclo de uma aparente continuidade naturalista, como se a nova casa e o seu pr\u00f3prio contexto sempre l\u00e1 estivessem estado, s\u00f3 \u00e9 demonstr\u00e1vel quando a nova tipologia se organiza a partir do interface \/ garagem, onde a condi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica traduz a depend\u00eancia do autom\u00f3vel ou exteriormente a piscina que, conjuntamente com outros sinais, v\u00e3o fazendo desaparecer a original paisagem do ciclo produtivo para fundar a do ciclo estritamente residencial ora mais, ora menos mediatizado.<br \/>\nA nova casa \u00e9 um microcosmos de converg\u00eancia, de reuni\u00e3o, de abrigo, de interc\u00e2mbio, mas a sua interioridade \u00e9 fortemente comunicante com o exterior, absorvendo-o e projectando-o noutra \u201cnatureza\u201d formalmente articul\u00e1vel e sem roturas violentas com as precedentes, antes procedendo a uma requalifica\u00e7\u00e3o determinada e determinante.<br \/>\nUma arquitectura que denota erudi\u00e7\u00e3o e clara contemporaneidade, em que as refer\u00eancias preferenciais assentam na reminisc\u00eancia de um movimento moderno essencialista, das caixas de transpar\u00eancia \u201cmiesianas\u201d \u00e0s delimita\u00e7\u00f5es laminares neo-pl\u00e1sticas s\u00e3o mitigadas no confronto com as pr\u00e9-exist\u00eancias, revelando uma certa eros\u00e3o, ou mesmo uma contamina\u00e7\u00e3o de materialidades mais arcaicas, por vezes adaptadas, ou mesmo radicalmente contrapostas.<br \/>\nUma arquitectura paradoxalmente radical, num certo reducionismo abstractizante, coexiste com o desejo de encontrar e fundar ra\u00edzes num territ\u00f3rio precedente, de algum modo reconhec\u00edvel, como mem\u00f3ria latente e identit\u00e1ria.<br \/>\nN\u00e3o se trata de um radicalismo exclusivista, mas antes convergente e inclusivo de uma forte cultura tect\u00f3nica e ambiental que, apesar de ter perdido os seus fundamentos, \u00e9 encarado como res\u00edduo com inquestion\u00e1vel carga de tens\u00e3o po\u00e9tica.<br \/>\n\u00c9 muito estimulante verificar como a casa na Costa Nova, em \u00cdlhavo, parece escapar a esta l\u00f3gica naturalista, por constrangimentos espec\u00edficos duma apertada condi\u00e7\u00e3o de lote estreito e profundo, entalado entre interven\u00e7\u00f5es recentemente insufladas e descaracterizadas, deixando como alternativa um apertado vazio entre duas ruas paralelas, uma com frente de mar, em tempos formada por aut\u00eanticos palheiros de madeira policromada.<br \/>\nAinda neste caso o esfor\u00e7o formal revela uma vontade de transformar a matriz fundi\u00e1ria da parcela do cadastro, na rela\u00e7\u00e3o long\u00ednqua do mar, interiorizando-o nos pisos superiores e elevando o piso t\u00e9rreo sobre pilotis, de modo a tornar omnipresente nesta cota o velho palheiro, recuperado nas suas duas frentes e j\u00e1 integrado no novo conjunto.<br \/>\nUma reflex\u00e3o importante deve ser feita em torno duma arquitectura em que a presen\u00e7a mat\u00e9rica \u00e9 determinante e reveladora de uma forte intensidade sensorial.<br \/>\nA conviv\u00eancia de novos materiais como os simples paramentos rebocados, os enormes \u00e9crans de vidro ou as coberturas de zinco, convivem com os \u201cnovos-velhos\u201d materiais como o a\u00e7o cor-ten ou outros \u201cvelhos-novos\u201d, como a pedra de junta seca, a madeira tropical, convergindo numa presen\u00e7a t\u00e1ctil, t\u00e9rmica, luminosa, onde o jogo da altern\u00e2ncia luminosa potencia as sobrepostas texturas, conferindo-lhes uma densidade e uma habitabilidade apraz\u00edvel, acolhedora, confort\u00e1vel e criativa.<br \/>\nS\u00e3o casas de \u00f3bvia e fascinante habitabilidade, duma arquitectura para ver e ser vista, para sentir; uma arquitectura para caminhar e medir, mas que se constitui ela pr\u00f3pria como medida referencial na paisagem.<br \/>\nUma arquitectura, sobretudo para o uso e para o afecto, para a plenitude que se constr\u00f3i em contacto com a terra e na qual, \u00e0 presen\u00e7a discreta das fun\u00e7\u00f5es, se sobrep\u00f5e a dimens\u00e3o normal da vida.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>casas GON\u00c7ALO BYRNE (introdu\u00e7\u00e3o 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