SOBRE A ARQUITECTURA DE JEAN PIERRE PORCHER E SEU ATELIER

“un praticien rend toujours un philosophe nerveux”

eduardo souto de moura

(extracto introdução monografia: “Jean Pierre Porcher, Margarida Oliveira e Albino Freitas”)

Se compararmos a Pirâmide de Gizé com a Pirâmide do Louvre, constatamos que, em milhares de anos, a forma manteve-se, para servir uma nova função. Se observarmos os cortes dos edifícios, o que mudou foi a massa de construção. O sólido repleto de matéria libertou-se e ficou reduzido a uma silhueta com poucos centímetros de espessura. A arquitectura, ao longo dos tempos, tem feito um esforço para se desmaterializar, perdendo peso para elevar-se, contrariando a gravidade (1). A Grécia torneou a mármore a coluna Egípcia e os Romanos retirando-lhe o interior, revestiram-na com o mesmo material. O Românico acomodou-se à Basílica, a estrutura Gótica, com os arcobotantes, eliminou paredes e fechou os vãos com vidro – Luz+Luz+Luz até chegar a Deus. Os Neo-Clássicos foram sobrepondo Ordens em altura e abrindo vãos até à cornija. As colunas, essas passaram a ser em estuque. O betão e o ferro permitiram aos Arquitectos pensar da mesma maneira, mas com uma vantagem, a de poderem separar a estrutura das paredes, codificando-as como autónomas. Corbusier inventou a estrutura “Dominó”, e soltou as plantas e as fachadas do sistema construtivo. O construir com a estrutura independente deixou de ser um manifesto do Movimento Moderno e passou a ser o “modus operandi” do mercado da construção. Por isso é que o “Pós-Modernismo” durou pouco, a parede resistente era demasiado cara. Limitou-se não a mudar a linguagem construtiva, mas a fazer colagens com o que gostava da História – Venturi e Rossi são geniais. Não conseguindo ter um nome, redimiu-se a ser “Pós” de outra coisa, o Modernismo. A “máquina de habitar” regressou, levando ao limite as engrenagens e os espaços residuais. O pluralismo, com os meios técnicos disponíveis, passou a ser a regra. A ambiguidade instalou-se, e a madeira, a pedra e o ferro passaram a ser “fitas” deles próprios. Por vezes com o desgaste da máquina é preciso mudar de “fita”, e pode-se, nas recuperações, por uma questão de “gosto” escolher outro tema e mudar de versão. As capas dos edifícios vão mudando de rosto, e o rosto não é o que é, mas sim o simulacro do próprio, em que a maquilhagem faz milagres. Hoje trabalhamos com estruturas independentes, escolhemos autónomamente o material para as fechar, decidimos as “peles” que queremos conforme o frio e a chuva, ou então a nosso gosto. Com tão pouca espessura e tanto liberalismo, as regras foram apertando. Fixaram-se limites económicos, físicos, de energia, de segurança contra sismos, incêndios, áreas mínimas, regulamentos internacionais, nacionais e posturas municipais. A arquitectura hoje dispõe de uma paleta de plasticismos quase infinita. A “tela” em branco, pode receber quase tudo, depende é da nossa vontade pessoal e do bom senso dos outros para que possa existir.
A arquitectura do Jean Pierre Porcher e dos seus sócios, parte desta actualidade, em que tudo é soma das partes autónomas, pacientemente separadas em elementos que existem por si. É o “Dasein” de Heidegger. É a estratégia de quem não a tem, e sabe que não pode e não deve tê-la. Uma “axiologia” confortável e inoperante na resposta diária. É o ir tacteando os sítios, as partes para chegar ao todo, sabendo que não há todo. Os planos de arquitectura em Jean Pierre existem para fechar os abertos e informar pictoricamente o colectivo de quem vive lá dentro ou de quem passa por fora. As suas telas castanhas e negras aproximam-se dos portões de corten que rodam em pivots, envolvidos por vidros foscos, alumínios polidos, ou pedras texturadas. O resultado, é uma máquina de emoções pictóricas, onde os materiais convivem e se dispõem num jogo abstracto e neoplástico, reduzidos apenas à sua condição de matéria e só matéria, sem narrativa. Apenas se afirma a sua existência na topografia, e aguardam pelo”gestaltismo” de alguém que os possa reunir. Mas na “recherche” de Jean Pierre e dos seus sócios, o contrário também é verdade. A continuidade da pele pode ser total, mesmo forçando a naturalidade das coisas: uma janela transparente, ou um estore em alumínio, ou uma porta de garagem em chapa galvanizada. Tudo é pintado à distância com um “spray” em que os perfis de alumínio são dirigidos a todas as partes do edifício, condensando-o num só objecto. O resultado da arquitectura de Jean Pierre é a inquietação que nos provoca (a nossa situação de arquitectos), ao sabermos que os fragmentos estão unidos artificialmente e que noutras situações é o contrário: o elemento em si é “fatiado” com juntas, para poder mudar ou receber outros materiais. A arquitectura e a pintura de Jean Pierre, visualizam um mundo intenso que vive em todas as direcções, com todos os excessos, daí a emergência do minimalismo por cansaço e esgotamento. A arquitectura de Jean Pierre visualiza a condição da disciplina hoje, de Nova Iorque a Braga, de Basileia a Ponte de Lima. Não, não estamos inibidos, não é de lamentação que se trata. Resta-nos a raiva para poder desenhar o “Poema Contínuo”: “Pode ser que tudo esteja bem no plural de um mundo intenso” (2).

(1) “Para a História do Futuro: Um texto de 1991”, Arqº . Fernando Távora
(2) Herberto Helder