Casas

GONÇALO BYRNE

(introdução monografia: “Casas, Houses”)

As artes da paisagem são de tal modo dominadas por André Le Nôtre, o paisagista do Rei-Sol, Luís XIV, que este o trata com amizade íntima e, ao mesmo tempo, temerária, já que o julga possuidor de dotes sobre-humanos.
Bastará percorrer os jardins de Vaux-Le-Vicomte para dar razão a Luís XIV, tal é a maestria no domínio da perspectiva e a imaginação na ocultação e revelação dos âmbitos visuais, na sequência dinâmica de quem caminha, na percepção sensorial dos ambientes envolventes, referenciados ao edifício dominante – o Chateau -, simultaneamente tornado centro de convergência e pólo de radiação de toda a experiência real, vivida, ou simplesmente intuída.
Esta persistente e paciente capacidade – fruto do génio humano – da ideia transformada em artefacto, parte da natureza e a ela volta, noutra condição agora intuída por obra e graça da capacidade de projectar.
É este o fascinante labor da arquitectura que torna viagem de uma pré-existência, seja ela paisagem ou construção, reciclando-a numa outra presença com capacidade de inquietar quem pensa que a natureza ou a obra humana é definitiva, estática e indiferente a quem nela habita ou, simplesmente, com ela se confronta.
A obra já bastante divulgada e reconhecida deste atelier de Braga – sintomaticamente nomeado Topos – tem vindo a revelar, particularmente nas casas que constituem esta monografia, uma notável sensibilidade paisagística, de algum modo herdada da vertente antropológica revelada no inquérito à arquitectura popular dos anos 50 e, em parte, tocada pela melhor tradição da Escola do Porto.
Jean-Pierre Porcher, Margarida Oliveira, Albino de Freitas e os seus colaboradores apresentam nesta monografia uma fascinante selecção de casas em situações de periferia mais ou menos rural, onde a tradicional e banalizada tipologia pavilhonar dá origem a construções bastante mais complexas, nas quais os respectivos microcosmos individuais coexistem com as hierarquias paisagísticas que passam do domínio mais intimista à representação tópica, encenada entre um (só) aparente espontaneísmo e uma subjacente erudição.
Habitar a paisagem reciclando as pré-existências pressupõe, na lógica dos arquitectos, partir de uma natureza que apesar de já anteriormente antropizada se constitui como referência, onde as causas da anterior antropização desaparecem por erosão ou abandono e, como tal, regressam à condição natural.
Este naturalismo pré-existente revela no entanto traços antropológicos que se irão invocar na transformação que o projecto produz.
Antes de mais, a própria condição topográfica, geralmente complexa na maioria dos projectos em que um terreno inclinado é transformado por uma arquitectura de solo, estratificada entre muros de contenção, cuja materialidade é criteriosamente seleccionada numa tectónica poética e gravítica, estabelecendo novas relações entre as partes e predispondo outros usos, abrindo perspectivas visuais diversas, assimilando ou contornando coberto verde existente, promovendo um verdadeiro reordenamento do sítio, em que as próprias pré-existências construídas, esvaziadas dos seus fundadores, são reutilizadas, evidenciando as tectónicas remanescentes, agora ao serviço de novas tipologias que se irão entrecruzar com acrescentos, adjacências integrantes duma possível nova percepção unitária onde é notória a vontade de constituir como que outra nova natureza.
Essa notável capacidade de ir artificialmente e passo a passo fundando um novo sítio, fechando o ciclo de uma aparente continuidade naturalista, como se a nova casa e o seu próprio contexto sempre lá estivessem estado, só é demonstrável quando a nova tipologia se organiza a partir do interface / garagem, onde a condição periférica traduz a dependência do automóvel ou exteriormente a piscina que, conjuntamente com outros sinais, vão fazendo desaparecer a original paisagem do ciclo produtivo para fundar a do ciclo estritamente residencial ora mais, ora menos mediatizado.
A nova casa é um microcosmos de convergência, de reunião, de abrigo, de intercâmbio, mas a sua interioridade é fortemente comunicante com o exterior, absorvendo-o e projectando-o noutra “natureza” formalmente articulável e sem roturas violentas com as precedentes, antes procedendo a uma requalificação determinada e determinante.
Uma arquitectura que denota erudição e clara contemporaneidade, em que as referências preferenciais assentam na reminiscência de um movimento moderno essencialista, das caixas de transparência “miesianas” às delimitações laminares neo-plásticas são mitigadas no confronto com as pré-existências, revelando uma certa erosão, ou mesmo uma contaminação de materialidades mais arcaicas, por vezes adaptadas, ou mesmo radicalmente contrapostas.
Uma arquitectura paradoxalmente radical, num certo reducionismo abstractizante, coexiste com o desejo de encontrar e fundar raízes num território precedente, de algum modo reconhecível, como memória latente e identitária.
Não se trata de um radicalismo exclusivista, mas antes convergente e inclusivo de uma forte cultura tectónica e ambiental que, apesar de ter perdido os seus fundamentos, é encarado como resíduo com inquestionável carga de tensão poética.
É muito estimulante verificar como a casa na Costa Nova, em Ílhavo, parece escapar a esta lógica naturalista, por constrangimentos específicos duma apertada condição de lote estreito e profundo, entalado entre intervenções recentemente insufladas e descaracterizadas, deixando como alternativa um apertado vazio entre duas ruas paralelas, uma com frente de mar, em tempos formada por autênticos palheiros de madeira policromada.
Ainda neste caso o esforço formal revela uma vontade de transformar a matriz fundiária da parcela do cadastro, na relação longínqua do mar, interiorizando-o nos pisos superiores e elevando o piso térreo sobre pilotis, de modo a tornar omnipresente nesta cota o velho palheiro, recuperado nas suas duas frentes e já integrado no novo conjunto.
Uma reflexão importante deve ser feita em torno duma arquitectura em que a presença matérica é determinante e reveladora de uma forte intensidade sensorial.
A convivência de novos materiais como os simples paramentos rebocados, os enormes écrans de vidro ou as coberturas de zinco, convivem com os “novos-velhos” materiais como o aço cor-ten ou outros “velhos-novos”, como a pedra de junta seca, a madeira tropical, convergindo numa presença táctil, térmica, luminosa, onde o jogo da alternância luminosa potencia as sobrepostas texturas, conferindo-lhes uma densidade e uma habitabilidade aprazível, acolhedora, confortável e criativa.
São casas de óbvia e fascinante habitabilidade, duma arquitectura para ver e ser vista, para sentir; uma arquitectura para caminhar e medir, mas que se constitui ela própria como medida referencial na paisagem.
Uma arquitectura, sobretudo para o uso e para o afecto, para a plenitude que se constrói em contacto com a terra e na qual, à presença discreta das funções, se sobrepõe a dimensão normal da vida.