HABITAR

JEAN PIERRE PORCHER

Habitar não é simplesmente ocupar um lugar. É, como o entendiam os filósofos antigos, um acto de virtude, uma aptidão, uma força. Habitar é ocupar o lugar, nele demorar-se, preenchê-lo de si próprio, de tal maneira que seja possível nele imprimir e transmitir a sua própria imagem e que da sua vivência possa nascer uma ética face à vida e às suas provações. Para habitar começaríamos por nos ocuparmos de nós mesmos no nosso meio, para de seguida poder estender essa ocupação, de nós mesmos algures, aos outros.
Dar às pessoas a possibilidade de se ocuparem de si próprias, é em primeiro lugar estar atento a tudo o que poderia ter tendência a estereotipar, a artificializar, a modelar a sua maneira de ser.
Como fabricantes de espaços, não pretendemos produzir modelos, nem tão pouco produzir símbolos. A perfeição geométrica e o feito construtivo surpreendem-nos momentaneamente mas acabam sempre por nos aborrecer. Também não pretendemos contar histórias, nem fabricar dessas imagens de sonho/realidade, objectos impossíveis de construir, que submergem os media de arquitecturas e produzem na realidade cenários de televisão ineptos ou irrisórios.
Pretendemos produzir espaços vividos, carregados de fenómenos tirados de experiências simples de bem-estar. É forçoso constatar que estes espaços estão maioritariamente ligados a uma presença da natureza. Habitat / Mar – montanha – floresta – rio – campo – jardim e alguns raros meios urbanos, praças italianas, esplanadas parisienses, lugares com carácter, que têm um nome… Estes “bem-estar” provados, pretendemos reinventá-los, revivê-los, fazer com que os outros deles tirem prazer. Mesmo se soubermos que aqueles a quem eles se destinam vivem e habitam culturalmente, historicamente, antropologicamente ou psicologicamente diferentemente de nós.
Pretendemos que o projecto multiplique as boas sensações, …acusticamente, termicamente, que este ofereça o prazer do tacto, que emane odores de materiais como a madeira, que misture o frémito de uma folhagem ao ranger de um soalho, que apresente detalhes refinados e paradoxalmente inesperados.
Gostamos da discrição, não ser demasiado presentes, fazer com que o objecto arquitectural possa praticamente desaparecer para que se afirme a nossa concepção da arquitectura.